por Isobel, a Bachelorette
BjörkUm dia me deparei com um imenso livro enterrado bem no fundo da terra. Eu estava caminhando pela floresta, procurando por mandrágoras e pelo raro cogumelo do amor eterno. Poucos livros cruzam meu caminho então eu o peguei e tirei toda terra da capa dura que o cobria. Debaixo da sujeira apareceram antigas fotografias de uma mulher jovem. Essa mulher era eu.
Apesar do susto de ter meu próprio rosto na capa do livro, eu tinha esperança de que aquele livro fosse uma história de um cavaleiro em uma brilhante armadura e de uma princesa esperando ser resgatada das mãos de um ogro impiedoso. Era uma noite escura de inverno, eu estava sentada em frente à lareira, mergulhada numa velha aventura. Eu abri o livro tremendo, com medo e muita excitação. As páginas estavam em branco.
Eu estava quase chorando, sentindo algo que somava desapontamento e opressão quando olhei fixamente para o papel onde eu esperava estar escrito o primeiro parágrafo. Para minha surpresa o livro começou a escrever sozinho - como se fosse encantado:
“Um dia, quando eu estava caminhando pela floresta, procurando por mandrágoras e cogumelos raros do amor eterno, me deparei com de um livro imenso enterrado no fundo da terra.”
O que o livro escreveu foi exatamente o que eu tinha acabado de fazer. Ele parecia seguir cada movimento que eu fazia. “ Bem,” eu pensei, “ é um diário automático. Acho que significa que posso criar a história enquanto vivo". Aquilo me entristeceu. Quem poderia se interessar em ler, página por página, uma história de alguém como eu? Minha vida era tão simples e nunca seria uma boa leitura. Mas de repente uma frase apareceu : " Eu tinha que deixar a floresta. "
E outra frase também apareceu: “Eu percebi que o livro não estava somente recontando o que eu fazia, mas ele estava me dizendo o que eu deveria fazer. Já estava mais do que na hora de eu deixar minha casa e começar a explorar o mundo.". Eu fiz exatamente o que o livro me dizia e a floresta se abriu para mim como nunca tinha acontecido antes. E começou um lindo espetáculo de cores, movimentos e sons - como se a floresta quisesse ter certeza de que ficaria enraizada para sempre na minha memória com sua beleza vertiginosa. Agora eu estava pronta para ir.
Eu entrei no trem e estava me aproximando da cidade. O campo tinha desaparecido instantaneamente. Eu sentei-me no banco e comecei a ler sobre minha jornada, a narração estava sempre um passo à frente do que estava acontecendo comigo. O trem deslizava rápido como uma bala gigantesca nos seus trilhos iluminados. As vilas se tornaram cidadezinhas, as cidadezinhas se tornaram municípios, e os municípios se tornaram A CIDADE.
Do lado de fora das janelas eu via os arranha-céus crescendo no horizonte como se fossem dedos enormes tentando furar buracos no firmamento. Assim que o trem chegou à estação e a multidão ocupada me empurrou na rua, eu consultei o livro para saber qual seria o próximo acontecimento. Uma frase surgiu: “Eu explorei a cidade como eu explorava a floresta." Então, foi isso o que eu fiz.
Estranhamente a cidade não me assustou. Os edifícios me lembravam os altos pinheiros da floresta; a luz nas janelas reluzia como a neve nos galhos dos pinheiros. Os carros corriam nas ruas como os animais se preparavam ocupadamente para o inverno. E as luzes de néon? Bem, elas eram minhas estrelas do interior.
Os dias se passaram e as páginas se encheram de palavras. Eu seguia o que o livro escrevia como um alquimista segue a receita de um elixir para a vida eterna. O livro me dizia que a única condição era esperar a próxima frase aparecer, e que se eu não respeitasse essa regra minha bela aventura acabaria como um sonho. Era uma regra fácil para se obedecer. O livro me levava a lugares além da minha imaginação. Eu fazia qualquer coisa que ele me pedisse.
Mas uma coisa começava a me incomodar. As páginas em branco se tornavam assustadoramente poucas. Eu não poderia fazer nada além de imaginar o fim da minha história. Eu temia pelo pior e começava a pensar sobre isso noite e dia. Eu estava prestes a desaparecer? Ou a morrer?
Eu estava pensando seriamente em romper meu relacionamento com o livro quando ele trouxe a salvação. O livro começou a escrever palavra por palavra. Fez o que todos os bons livros fazem; criam suspense nas últimas páginas. Eu ri daquilo, sentada no alto de um edifício na cidade. Para celebrar o fato de ter recuperado minha confiança o livro escreveu no começo da última página: “E eu levei minha história para Clark - editor de bons livros, na esquina da Easy Street com a Rua 23.”
Eu levei minha história para Clark - editor de bons livros na esquina da Easy Street com a Rua 23. No escritório de Clark eu o entreguei o livro. Ele pediu para que eu me sentasse numa cadeira confortável em frente à sua mesa enquanto eu o assistia lendo minha história. Eu podia ver que as palavras o emocionavam e como ele se envolvia com o que acontecia como se fosse ele mesmo quem viveu aquilo. Enquanto seus olhos passavam pela última página a última frase que concluía minha história apareceu: “Eu soube que meu coração pertencia a ele e que eu o amaria para sempre e sempre..."
FIM
* Traduzi humildemente por solidariedade aos que não têm saco para traduzir ou que não falam inglês। Björk merece.
Original aqui.
